Café da tarde em Campo Grande: por que a cuca, a chipa e o bolo de mandioca dividem a mesma mesa

chipa em campo grande

Repare na próxima vez que você for a um café da tarde na casa de alguém em Campo Grande.

Tem uma garrafa térmica de café passado. Tem uma cuca com farofinha por cima. Alguém trouxe chipa da feira. E, quase sempre, tem um bolo de mandioca ou de milho cortado em quadrados, esperando no canto da mesa.

Parece só um lanche. Mas essa mesa conta, sem ninguém perceber, mais de 150 anos da história da cidade.

Cada item ali chegou por um caminho diferente: veio do Sul na bagagem de famílias gaúchas, atravessou a fronteira com o Paraguai ou já estava aqui muito antes de existir uma cidade. Neste artigo, a gente passa por cada um deles e mostra por que o café da tarde em Campo Grande é um dos mais misturados do Brasil.

Uma cidade feita de muitos sotaques

loja de bolos em cg
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Campo Grande nasceu de gente que veio de fora. O mineiro José Antônio Pereira, de Barbacena, chegou à região em 1872 e voltou em 1875 com um grupo de 65 pessoas. A vila virou município em 1899.

Depois vieram os outros. Paraguaios se instalaram na região depois da Guerra do Paraguai (1864–1870), e no começo do século 20 cerca de 30% da população era formada por eles e seus descendentes. Em 1914, a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil chegou, e com ela os japoneses, a maioria de Okinawa, que tinham trabalhado na obra e decidiram ficar. Libaneses abriram comércio na Rua 14 de Julho. E famílias gaúchas foram chegando em ondas, da Guerra do Paraguai à Marcha para o Oeste de Getúlio Vargas.

Cada grupo trouxe o seu jeito de comer. É por isso que o prato típico eleito da cidade é o sobá, de origem okinawana, registrado como patrimônio imaterial de Campo Grande em 2006. E é por isso também que o café da tarde daqui não se parece com o de nenhum outro lugar.

Cuca: o bolo alemão que chegou com os gaúchos

CUCA-EM-CAMPO-GRANDE-MS
CUCA-EM-CAMPO-GRANDE-MS

O nome já entrega a origem. “Cuca” vem de Kuchen, que em alemão quer dizer simplesmente “bolo”. A receita chegou ao Rio Grande do Sul com os imigrantes alemães a partir de 1824 e virou presença obrigatória no café colonial gaúcho.

Quando as famílias do Sul subiram para Mato Grosso do Sul, trouxeram na bagagem o chimarrão, o churrasco de domingo e a cuca. Os gaúchos costumavam migrar em grupos familiares e se fixar perto uns dos outros, o que ajudou a manter os costumes vivos. O primeiro Centro de Tradições Gaúchas de Campo Grande, o CTG Farroupilha, é de 1962.

O que mudou por aqui foi o recheio. A cuca tradicional leva frutas como banana, uva ou maçã sob uma farofa doce de manteiga e açúcar. Por aqui, é comum encontrar versões bem brasileiras, com cuca de goiabada e de doce de leite, que conversam muito melhor com um café preto no fim da tarde.

Curiosidade: a farofinha crocante por cima, que muita gente acha que é só decoração, é a parte mais tradicional da receita. Em alemão ela tem nome próprio: Streusel.

Chipa e sopa paraguaia: a herança da fronteira

Se a cuca veio do Sul, a chipa veio do outro lado da fronteira. E ela é mais antiga do que parece.

A chipa surgiu nas missões jesuíticas, juntando dois mundos: o polvilho da mandioca, que era dos povos indígenas, e o queijo, o leite, os ovos e a gordura, que vieram da Europa. Ela é prima próxima do nosso pão de queijo e tem parentes pela América do Sul inteira: é cuñape na Bolívia e pandeyuca na Colômbia.

Em Campo Grande, com tanta família de origem paraguaia, a chipa virou lanche de rua, de feira e de café da tarde. É aquele salgado que acompanha o doce e equilibra a mesa.

A sopa que não é sopa

sopa paraguai em campo grande ms
sopa paraguai em campo grande ms

A sopa paraguaia é a maior pegadinha da culinária sul-mato-grossense. Quem chega de fora espera um prato fundo e recebe uma fatia de algo parecido com um bolo salgado de milho, com queijo e cebola.

A explicação vem de uma lenda. Os guaranis já faziam um caldo de milho bem temperado. Carlos Antônio López, presidente do Paraguai no século 19, adorava esse caldo. Um dia, a cozinheira do palácio, Machú, colocou farinha de milho demais. Sem tempo para refazer, levou ao forno e serviu assim mesmo. O presidente gostou tanto que o prato ficou, e ficou com o nome antigo.

Curiosidade: em muitas casas de Campo Grande, a sopa paraguaia aparece tanto no almoço, ao lado do churrasco, quanto no café da tarde, cortada em quadradinhos.

Bolo de mandioca e de milho: o que já era da terra

De tudo o que está na mesa, o bolo de mandioca é o que tem a raiz mais funda, literalmente.

A mandioca e o milho são nativos das Américas e eram cultivados pelos povos indígenas muito antes de qualquer imigrante chegar. Os portugueses aprenderam a usar a mandioca com eles, e o encontro com o açúcar, os ovos e o coco deu origem aos bolos que hoje parecem ter sempre existido.

Em Mato Grosso do Sul, onde a mandioca está em quase toda horta e roça, esse bolo nunca precisou ser “trazido” por ninguém. Ele é o ponto de encontro: o gaúcho, o paraguaio, o mineiro e o japonês que chegaram aqui acabaram todos comendo o mesmo bolo de mandioca cremoso no café da tarde.

O bolo de milho segue a mesma linha, e tem até um parentesco curioso com a sopa paraguaia: os dois nasceram do milho, só que um foi para o lado doce e o outro para o salgado.

Tereré: a bebida que acompanha tudo

No resto do Brasil, café da tarde é sinônimo de café. Em Campo Grande, muita gente troca a xícara pela guampa.

O tereré, a erva-mate servida com água gelada, também veio do Paraguai e se espalhou pelo estado inteiro. Em dezembro de 2020, a UNESCO reconheceu as práticas e saberes do tereré como Patrimônio Imaterial da Humanidade, em uma candidatura do Paraguai. Em junho de 2023, a Assembleia Legislativa aprovou por unanimidade o tereré como patrimônio cultural e imaterial de Mato Grosso do Sul.

E ele combina com bolo? Combina. O gelado e levemente amargo do tereré corta o doce da cuca e do bolo de mandioca, do mesmo jeito que o café preto faz. Nos dias quentes, que aqui são quase todos, é a dupla mais campo-grandense que existe.

Perguntas frequentes sobre o café da tarde em Campo Grande

Qual é a comida típica de Campo Grande?

O prato típico oficial é o sobá, de origem okinawana, registrado como patrimônio imaterial da cidade em 2006. No café da tarde, os mais tradicionais são a chipa, a sopa paraguaia, a cuca e os bolos de mandioca e de milho.

Sopa paraguaia é doce ou salgada?

É salgada. Apesar do nome, é uma torta de milho com queijo e cebola, assada no forno e servida em fatias.

Qual a diferença entre chipa e pão de queijo?

Os dois levam polvilho e queijo, mas a chipa costuma ter massa mais firme e formato de ferradura ou argola. O pão de queijo é mais aerado e redondo.

De onde vem a cuca?

Da Alemanha. O nome vem de Kuchen, “bolo” em alemão. Ela chegou ao Brasil com os imigrantes alemães no Rio Grande do Sul e a Mato Grosso do Sul com as famílias gaúchas.

Tereré é a mesma coisa que chimarrão?

Não. Os dois usam erva-mate, mas o chimarrão é tomado com água quente e o tereré com água gelada, às vezes com gelo e ervas.

Onde encontrar uma Cheiro d’Bolo pertinho de você?

casa de bolo campo grande
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A mesa de café da tarde de Campo Grande é feita de histórias que vieram de longe. Mas o que faz ela ser especial é bem simples: um bolo fresquinho, com cara de casa de vó, e gente em volta.

É isso que a Cheiro d’Bolo faz todos os dias. Bolos caseiros e artesanais, sem conservantes, feitos para o café da manhã e o café da tarde, dos tradicionais como cenoura, mandioca, milho e chocolate até as cucas de goiabada e de doce de leite. Veja todos os sabores aqui.

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  • Unidade 4 – Cheiro d’Bolo | Av. Bom Pastor, 707 – Campo Grande – MS
  • Unidade 5 – Cheiro d’Bolo | Rua Olímpio Klafke, 242 – Campo Grande – MS

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